Entre os anos 2000-2001, quando da virada do milênio, outra “virada” alterou não somente marcos cronológicos, mas também inaugurou uma nova Era acadêmica em terras brasileiras. O então pesquisador de antiguidade clássica, professor André Chevitarese, graduado, mestre, doutor e pós-doutor estudando arqueologia, antropologia e história rural da Ática no período clássico, voltou-se para o estudo de experiências religiosas, em particular, mas não exclusivamente, para a área de paleocristianismos e suas recepções.

            De forma pioneira no Brasil, subverteu uma lógica universitária nunca antes vista no Brasil, qual seja, a de levar os estudos sobre experiências religiosas, notadamente os paleocristianismos, para o ambiente de uma universidade pública (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e laica. Demovendo a área de estudos de seu ambiente confessional dogmático, bem entendido, faculdades religiosas de teologia e seminários preparatórios de sacerdotes, esse movimento possibilitou outras abordagens e olhares das ciências humanas e sociais para as experiências religiosas.

            Após estudos aprofundados e diálogos com demais especialistas, o professor Chevitarese começou a oferecer cursos específicos em disciplinas eletivas para o curso de Graduação em História da UFRJ, além, é claro, de ampliar suas considerações sobre a antiguidade clássica incluindo a formação dos cristianismos como objeto de preocupação dentro dos estudos sobre antiguidade grega e romana, essas, disciplinas obrigatórias por ele ministradas no mesmo curso de graduação.

            Um antigo provérbio africano, de autoria desconhecida, diz que se alguém “quer chegar mais rápido a algum lugar, deve ir sozinho, mas, se quiser chegar mais longe, deve ir com muitos”. Nesse sentido, amigos desde sempre, Gabriele Cornelli (UnB, atualmente), Paulo Nogueira (UMESP, atualmente), Pedro Paulo Funari (UNICAMP, atualmente) e outros intelectuais da área de estudos de antiguidade, bem como teologia/ciências da religião, foram de valiosa parceria para o desenvolvimento da recém inaugurada área de estudos.

            Desse movimento, naturalmente, orientações de monografia, mestrado e doutorado se iniciaram e duram até hoje (2016), com muitos estudantes formados nessa área de estudos. Também os eventos surgiram para diálogo acadêmico e abertura do saber produzido intramuros da universidade em direção à sociedade como um todo. Foi assim que, em 2003, no então Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS (que abrigava o curso de História, atualmente, Instituto de História) veio a acontecer o primeiro evento da área: “Os olhares da ciência sobre o início do Cristianismo”. Embora percalços e (até mesmo) prejuízos financeiros tenham surgido, essa tradição de eventos acadêmicos também permanece até o presente momento (2016).

            Decorrente de cursos oferecidos na graduação em história, orientações de pesquisas, realização de eventos, diálogos com outros intelectuais e contínua participação em bancas de pós-graduação nessa área foi inevitável que o trabalho pioneiro do professor André ganhasse contornos ainda mais institucionais. Assim sendo, em 2007, outro evento sobre estudos de paleocristianismos veio a acontecer no IFCS: “O Jesus Histórico”, com participação do renomado e amigo John Dominic Crossan, o qual colabora conosco até hoje.

            Naturalmente, o resultado desse evento conheceu diversas publicações: “Jesus de Nazaré, uma outra História”, “A descoberta do Jesus Histórico”, matérias em jornais e revistas de grande circulação à época e outros materiais decorrentes desse impulso inicial engendrado pelo professor André e professor Cornelli. Este último, inclusive, parceiro de outras publicações relevantes na mesma área de estudos. O professor Chevitarese já publicara outros três livros, muitos capítulos de livros e tantos outros artigos em periódicos científicos da área de antiguidade clássica.

            No entanto, em 2003, surgiu, em parceria com o professor Cornelli, o primeiro livro exclusivamente dedicado aos estudos de paleocristianismos em perspectiva histórica, arqueológica e antropológica: “Judaísmo, Cristianismo e Helenismo”. E, ainda, um breve ensaio pela Editora Abril e Revista Superinteressante, juntamente com o jornalista Rodrigo Cavalcante, acerca da figura de Jesus. Daí por diante, até o presente (2016), outras 8 publicações individuais ou em co-autoria do professor André consolidaram uma área de pesquisa no Brasil.

            Do ponto de vista formal, em 2008, foi inaugurado o grupo de pesquisa “Jesus Histórico e sua Recepção”, sediado no departamento de história da UFRJ e certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/7479857152005873). E, consequentemente, um laboratório de estudos sobre o mesmo tema. Dessa iniciativa, a Revista de Estudos sobre o Jesus Histórico e suas Recepções (http://www.revistajesushistorico.ifcs.ufrj.br) começou a ser editada e continua até hoje publicando trabalhos de pesquisa nas mais diferentes áreas de estudos sobre experiências religiosas.

            Outros eventos também vieram a acontecer com organização do grupo de pesquisa que, desde seu início, já contava com um bom número de participantes: “Intolerância. Uma Perspectiva Histórica” (2009), “I Colóquio Estadual. Liberdade Religiosa e a Construção de um Novo Mundo Possível: Diálogo Religioso e a Promoção da Paz” (2010)  e “O Cristianismo em Debate” (2011); este evento abrigou ainda o lançamento da editora Kliné; “História, Democracia e Experiências Religiosas” (2014), sem mencionar tantos outros em que o grupo de pesquisa participou como coletivo organizado ou seus membros estiveram presentes individualmente expondo as pesquisas desenvolvidas no espaço interno do laboratório.

            Fato marcante na trajetória deste laboratório foi, também, a criação da Editora Klínē (http://www.klineeditora.com), em 2011, objetivando ampliar ainda mais o alcance e permeabilidade de publicações dessa recente área de estudos no Brasil em contexto não religioso. Outros eventos, parcerias, atividades, cursos de extensão e tantos outros trabalhos envolveram o grupo que, aos poucos, foi formando esse laboratório. Muitos dos quais, ainda conosco, podem ser conhecidos em suas respectivas áreas de atuação descritas em outras partes deste mesmo site.

            A abrangência do grupo de estudos Jesus Histórico foi tomando tamanha proporção e promovendo tantos diálogos que pesquisadores das mais diversas áreas do saber, bem como confissões religiosas, tornaram-se associados. Logo, percebeu-se que uma ampliação do escopo do grupo, bem como de suas atividades era imperativa. Foi a partir dessa constatação que entre 2014-2015 foi gestado e criado o Laboratório de História das Experiências Religiosas.  Igualmente certificado pelo Instituto de História, UFRJ e CNPq.

            Chega-se, portanto, até aqui, com muita coisa realizada e muito mais ainda por vir. Queremos seguir caminhando com “muitos” ao nosso lado, a fim de que “cheguemos mais longe”!

Seja bem-vindo!

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